Francine Pena Póvoa

Qual é o papel das empresas e dos negócios para a sociedade?

Quando o assunto é ESG e Geração de Valor Sustentável, este é um dos questionamentos mais importantes da atualidade, especialmente em tempos tão complexos como os que que estamos vivendo. Estamos entrando no terceiro ano da pandemia da Covid-19, um desafio sem precedentes na história da humanidade. Pela primeira vez em vinte anos houve um aumento da pobreza extrema no mundo.

A desigualdade social mundial chegou a níveis alarmantes, contribuindo para a morte de uma pessoa a cada quatro segundos. Seria necessário 1,7 planeta Terra para dar conta de nossa demanda por recursos renováveis. Dentre os riscos globais mais impactantes para a humanidade nos próximos 10 anos estão a falha na ação climática, o clima extremo, a perda de biodiversidade, a erosão da coesão social, as crises de subsistência, doenças infectocontagiosas, dano humano ao meio ambiente, crise de recursos naturais, crise da dívida e confronto geoeconômico.

Estes são dados do Fórum Econômico Mundial, da Oxfam e da Footprint Network divulgados recentemente. Está claro que a forma como produzimos e consumimos precisa ser revista com urgência e a sociedade cada vez mais está exigindo ações em direção a um modelo econômico, social e ambiental mais resiliente, equitativo e sustentável.

Evidenciou-se a necessidade urgente das empresas alinharem seus objetivos estratégicos aos objetivos de longo prazo da sociedade e alguns temas que estavam avançando lentamente ganharam velocidade, relevância e um olhar mais abrangente. Por exemplo, até bem recentemente imperava nas empresas uma visão fragmentada no que se referia a temas como sustentabilidade, questões sociais e de governança, que eram trabalhados separadamente e na maioria das situações, sem qualquer relação com a estratégia do negócio. O foco das empresas continuava a ser na maximização do lucro no curto prazo e como forma de minimizar as externalidades negativas de suas atividades desenvolviam ações de responsabilidade social corporativa e filantropia.

Porém, recentemente, intensificou-se a preocupação com a adoção de uma agenda ESG, que permita avançar na direção de um modelo econômico, social e ambiental que gere valor para todos os stakeholders, o que requer uma abordagem de gestão que integre lucro e impacto positivo para a sociedade.  As questões ambientais, sociais e de governança estão deixando de ser responsabilidade de setores específicos dentro das empresas para serem responsabilidade da empresa como um todo. Conselheiros e Conselheiras de Administração, executivos e profissionais de diversas formações e áreas de atuação estão buscando compreender melhor o tema e se capacitar.

Como avançar nas questões ESG de forma consciente e concreta nos negócios?

Existem três passos fundamentais a serem dados pelas lideranças:

  1. Ter clareza sobre o propósito maior do da empresa;
  2. Identificar prioridades no tema alinhadas ao negócio e ao propósito;
  3. Construir pilares sólidos para as questões ESG;

A clareza sobre o propósito maior da empresa pode ser alcançada por meio de três reflexões:

  • Que diferença queremos fazer no mundo com nosso negócio?
  • O mundo fica melhor com a nossa presença?
  • Sentirão nossa falta se deixarmos de existir?

Quanto à identificação das prioridades nas questões ESG é necessário fazer uma análise de riscos e oportunidades, bem como a análise de materialidade, ou seja, identificar quais são os temas materiais e estratégicos para o negócio.

Como construir pilares sólidos de ESG em seu negócio?

A construção de pilares sólidos passa, necessariamente, pelo alinhamento das decisões, processos, programas e práticas de gestão ao propósito do negócio e às questões ambientais, sociais e de governança prioritárias para a empresa e seus stakeholders, e pela necessidade da empresa ser um agente de influência no ecossistema de negócios em que atua.

ESG é uma forma de pensar o negócio com mais consciência de seu propósito maior, de seus impactos sobre o planeta e de suas relações com todos os stakeholders. Requer um novo perfil de liderança e uma profunda mudança na cultura organizacional a partir do cultivo de valores que permitam a criação de valor sustentável para todos.

*Francine Pena Póvoa é Diretora da Legacy4Business Consultoria e Treinamentos, Conselheira do Instituto Capitalismo Consciente Brasil – Filial BH, professora convidada da Fundação Dom Cabral  e professora do curso ESG e Geração de Valor Sustentável do IETEC.