Realidade virtual e inteligência artificial transformam a Volks. O carro praticamente não existe. Não tem painel, nem teto, sequer um motor. É só uma plataforma com bancos. Mas com a ajuda de óculos de realidade virtual e sensores de movimento, o “motorista” pode dar asas à imaginação e colocar no interior do veículo real os equipamentos virtuais que desejar, nas cores favoritas, e trocá-los se não gostar. O que pode parecer um jogo eletrônico moderno é, na verdade, um trabalho diário que ocupa a equipe do laboratório de protótipos virtuais da Volkswagen em São Bernardo do Campo.

A realidade virtual tem ajudado a indústria automobilística a ganhar tempo no desenvolvimento de produtos. Permite que equipes de engenharia e de manufatura trabalhem ao mesmo tempo, o que agiliza na tomada de decisões e redução de custos.

Na Volks, a área de vendas também está mudando. Depois dos testes com a chamada “concessionária digital”, que permite ao cliente visualizar os veículos com óculos de realidade virtual, no próximo mês, a montadora vai lançar um sistema que leva o vendedor até o local de trabalho do cliente.

O avanço tecnológico coincide com uma fase em que a direção mundial da Volks decidiu dar mais autonomia a comandos regionais fortes, como a América do Sul, e transferir a eles decisões antes tomadas na Alemanha.

Quem ganhou foi a fábrica da Volks de São Bernardo, a mais antiga da montadora no país e primeira do grupo construída fora da Alemanha. Em novembro completará 60 anos. Essa unidade recebeu R$ 2,6 bilhões de investimentos para renovar produtos e ter equipamentos e software compatíveis com novos conceitos. Mas isso só aconteceu depois que a montadora negociou redução de benefícios com os trabalhadores.

As mudanças na Anchieta, como a fábrica é conhecida por estar às margens da rodovia com o mesmo nome, refletem uma negociação, de três anos atrás, entre empresa e Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Os trabalhadores aceitaram abrir mão de benefícios, como aumento real em troca de novos investimentos.

Paralelamente, o comando na América Latina ganhou mais liberdade para, inclusive, interferir no desenho dos novos veículos. Isso ajuda a abrir espaço para que a filial brasileira se transforme em centro de desenvolvimento de projetos para mercados semelhantes num momento em que a matriz dedica-se aos projetos de carros elétricos e autônomos. Este ano foram abertas 100 vagas nas áreas de engenharia e design, que contam agora com 950 profissionais.

Na área de vendas, testes com a chamada “concessionária digital” começaram há cerca de seis meses

Di Si gosta de ele mesmo comandar as visitas pelos setores que mais usam realidade virtual e inteligência artificial. “É uma transformação violenta”, afirma. O uso de telas e óculos 3D permite verificar cada componentes do carro, por dentro e por fora. No laboratório de protótipo virtual, com óculos 3D e dois sensores de movimento que fazem o papel de “mãos”, a pessoa pode abrir e fechar portas e capôs de forma virtual.

O novo método reduziu a necessidade de protótipos físicos, feitos de argila. Segundo a Volks, isso levou a uma redução de custos de 20% e acelerou o tempo de desenvolvimento. “Conseguimos fazer uma análise de composição e segurança de um veículo e imediatamente enviar a informação às demais áreas. Há três anos recebíamos as informações em papel e tínhamos que imprimir para mandar para a frente”, afirma o supervisor de montagem e virtualidade da Volks, Antoninho Valdambrini.

Na área de vendas, testes com a chamada “concessionária digital”, que permite visualizar vários modelos em diferentes versões com a ajuda do óculos de realidade virtual, começaram há cerca de seis meses. Do seu escritório, Di Si consegue visualizar se o recurso está ou não sendo usado. “Quem não se atualizar vai morrer”, destaca.

Quando o vendedor se deslocar até o local de trabalho do cliente, as coisas ficarão ainda mais fáceis. “Ele levará um tablet e um óculos 3D e poderá até tirar o pedido no próprio tablet. E se o cliente quiser testar o carro poderemos leva-lo até sua casa”, afirma. “Isso muda a forma do negócio”. Ele está certo de que não haverá resistência dos concessionários. “Esse tipo de venda reduz capital de giro e a necessidade de manter salões monstruosos para mostrar os carros”.

O momento da visita que Di Si mais gosta é a sala onde ficam os segredos; ou seja, os futuros lançamentos. Máquinas fotográficas, obviamente, têm de ficar do lado de fora do amplo salão de piso branco, impecavelmente limpo e fortemente iluminado.

Di Si tira o tecido que o cobre um dos veículos e espera por uma reação. O modelo, desenvolvido pela equipe brasileira e programado para chegar ao mercado em 2020 é um chamado CUV (“Cross Urban Vehicle”), uma mistura do já conhecido utilitário esportivo (SUV na sigla m inglês) e um cupê. São novas configurações que conferem à marca um ar moderno. O modelo descoberto por Di Si parece um carro pronto, feito com chapas de aço. Mas, na verdade, ainda está na versão “clay”, em argila.

O CUV é um dos lançamentos programados pela Volks até 2020. Falta mais um. Um modelo compacto que levará mais investimento para o ABC. A fábrica de São Bernardo foi escolhida para receber mais esse projeto depois da visita do presidente mundial do grupo, Herbert Diess, em agosto. Diess encarregou-se ele mesmo de iniciar conversas com os representantes dos metalúrgicos para medir a disposição para manter flexibilidade nas negociações trabalhistas.

Há seis décadas, a festa de inauguração da fábrica de São Bernardo foi marcada pela emblemática foto do então presidente Juscelino Kubitschek, desfilando em Fusca conversível. A Kombi foi o primeiro veículo produzido na unidade. Muita coisa mudou desde então. A tecnologia mudou a forma de desenvolver veículos. Mas decisões estratégicas para manter uma fábrica ativa ainda dependem das relações trabalhistas.

Autoria: Valor Econômico

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